Se você pudesse sonhar que coletou todas as suas inspirações e influências, com o que você sonharia?
Há alguns dias atrás, o ilustre ilustrador
Renato Alarcão fez uma postagem muito interessante sobre um exercício no mínimo curioso, cujo conteúdo vocês podem conferir clicando
aqui e trata exatamente deste tipo de sonho.
Não é segredo para ninguém que eu admiro muito este moço e, como acredito que é esperto quem segue os bons, sobretudo quando se trata deste tipo de exercício, hoje me dou ao luxo de fazer uma enorme postagem sobre... meus sonhos.
Aviso de antemão àqueles que se cansam com posts longos que este irá longe. Ao mesmo tempo recomendo este exercício a todos os criativos tal como fez o Alarcão! :)
OBS: muita coisa está linkada no Wikipedia, ao que alguns poderão torcer o nariz, mas fi-lo pois acredito que seja a página mais fácil para encontrar links relacionados a um assunto e também para os eventuais leitores em língua inglesa que podem acabar caindo de pára-quedas por estas bandas.
Inicio então este exercício com a famosa frase:
“Eu sonhei que...”
Fui novamente ofuscada pelo espetacular brilho dos pastéis de
Odilon Redon (fotos minhas do
Museé D’Orsay - o negócio
brilha de verdade!!!);
Estou na entrada do lindo
Castelo de Chenonceau e vou andando pelos cômodos, inclusive o gabinete de Catarina de Médicis, até sentir sob meus pés as pedras irregulares do grande salão, pois as brancas já estão mais gastas que as negras;
Estou diante de
tua crua nudez,
Lucian Freud, num auto-retrato;
Sonho que sou uma andarilha na
Veneza atual e naquela descrita nas águas-fortes de
Giovanni Antonio Canal ou
Canaletto, participando de um
Carnaval elegantemente mascarada;
Que eu me perco no tempo, no espaço, na luz e na escuridão das
Cisternas da Basílica de Istambul;
Enquanto desejo adentrar e fazer parte do
Codex Seraphinianus, para explorar e viver por um tempo neste exótico mundo;
Que seu encantadoramente triste
Pintassilgo saiu voando feliz, meu caro e belo
Carel Fabritius -
impressão minha ou esta colocação dá margem para mais de uma interpretação? :)
Sonho que estou novamente diante deste
Gerhard Richter, rindo comigo mesma porque ele bagunçou minha cabeça, me fazendo ficar nas pontas dos pés para tentar enxergar uma paisagem atrás de nuvens pintadas;
Sento num ateliê para conversar longamente sobre escultura com
László Moholy-Nagy;
Que tive um filho/a;
Que estou em
Angkor Wat, sentindo sob meus pés o frio chão de pedra e pensando sobre as tantas pessoas que ali viveram e construíram aquela maravilha;
E o mesmo faço ao andar por quilômetros, sobre a
Muralha da China...
Sonho que estou
novamente diante do
Grande Buda de Nara – ele me sorri, sempre grande, dourado, esplêndido, generoso e maravilhoso – e é por isso que eu o amo;
Estou no deserto vendo um enorme navio passar por detrás das dunas no
Canal de Suez;
Diante do
Taj Mahal, enquanto me maravilho com sua beleza, penso sobre o amor e a morte;
Eu sou destemida na hora de fazer talho doce, talho forte e xilogravura tal como
Albrecht Dürer;
Consigo dar a elegância, altivez e silencioso brilho no que faço, como um pavão que abre sua cauda, como nas pinturas de
Anthony Van Dyck;
Sonho que sou a Amante de
René Magritte e talvez eu não queira saber quem é o Amante;
Cor também famosa nas gravuras de
Utagawa Hiroshige – cuja técnica de degradês do impressor quero incorporar e cujas gravuras é onde quero morar;
Que eu sabia imprimir as gravuras negras de
Itô Jakuchu, além de saber desenhar/pintar como ele e ter o seu imaginário;
Que chorei quando botei meus pés no
Polo Sul e no
Polo Norte. Mas no meio do caminho, tirei meu chapéu diante do único túmulo cuja cabeceira está voltada para o Polo Sul, nas
Ilhas Geórgias do Sul – o de
Sir Ernest Henry Shackleton - ele morreu no dia 5 de janeiro de 1922, no mesmo dia de meu aniversário, mas alguns anos antes... :)
Que o
tenugüi se tornou moda no mundo todo e eu estaria produzindo um monte deles... :)
Esturricado, tortuoso, anguloso e ressequidas paisagens e pessoas de
Egon Schiele é sobre o que sonho falar e não consigo;
A voluptuosidade de cores, texturas e carnes de
Gustav Klimt cantarolam nos meus mais abonados e luxuriosos sonhos;
Sinto novamente as presenças que me observam por cima de meus ombros nas salas expositivas – estas pessoas foram pintadas por
Rembrandt Harmenszoon van Rijn - incluindo seus auto-retratos - e, apesar de você saber que são pinturas, respiram e se fazem mais presentes que mero óleo sobre tela. Talvez até mais que pessoas de carne e osso;
Sou uma personagem imaginária na mente de
Spike Jonze e eu riria disso com ele;
Fico hipnotizada pela densidade colorida da matéria de
Jean Dubuffet;
Estou sozinha e frágil diante das farfalhantes folhas das gravuras de
Hercules Seghers;
Vejo a porta se abrindo para um ambiente de branca, gentil e suave luminosidade holandesa entrando pela lateral nas meditativas pinturas de
Johannes Vermeer;
Que suas águas-fortes e desenhos são tão delicadamente ricos e sensíveis que me fazem sorrir,
Jean-Antoine Watteau;
Que um
dogu está ali, para mim;
Que
Edvard Munch é meu sonho e o meu pesadelo ao mesmo tempo, guardados numa estranha caixa de Pandora que temo abrir, porém não resisto;
Que estou sendo quase derrubada pela fúria dos ventos úmidos e gélidos do Sul, na
Terra do Fogo
Que eu não fui tola e comprei o
guarda-chuva das “Flores de Amendoeira” de Vincent Van Gogh – souvenir acessível em Amsterdã em que marquei bobeira quando estive lá;
Entrei no mais belo desenho de paisagem que eu já vi na minha vida, que está numa carta de Vincent Van Gogh (e esta imagem foi a mais próxima que eu achei daquela que eu vi no
Museu Van Gogh...);
Pintar, desenhar e saber dar as mãos com competentíssimos gravadores e impressores como
Katsushika Hokusai;
Pelas praias da Holanda, perseguir ou ser perseguida por um dos monstrinhos movido a vento de
Theo Jansen (eu sei, o vídeo está largo demais - quem puder me ajudar com este bug, por favor me dê uma luz!);
Estou, novamente, vendo a mesma catedral agora ao longe, na Viena nevada, a partir do
Belvedere;
Que
esse virginiano estava me fazendo uma serenata, cantando
“I’m your man” – se ele de fato fizesse isso, eu lhe daria, casa, comida e roupa lavada! :DDD
Enfim, eis uma pequena lista das coisas com as quais eu sonho, sonhei e que provavelmente continuarei sonhando ainda por um longo tempo. “Pequena” lista, porque se fosse falar ainda sobre Arcimboldo, Brueghel, Rafael, etc. eu poderia ficar anos escrevendo este post. :)
Ah, para quem é atento, ficou um pouco diferente da proposta inicial do Alarcão – acredito que ele citou suas influências e inspirações, enquanto me permiti ir um pouco mais além, incluindo aspirações, memórias reais e delírios.
Um senhor exercício, mas que no fim me deixou... feliz. :)
Finalmente, a imagem de hoje: uma nova versão
desta.
Esferográfica e aquarela sobre colagem no caderninho tosco.
Dreams and coffee shop - again and again... (82.1)
A nice exercise suggested by the illustrator Renato Alarcão: write down a list of inspiring people and works! If you click on the links above, you'll find not only my inspiring people and things list, but you'll also find things I've done, things I want to do, to have and some more... :)
Today's image: a new version of this one.
Ballpoint pen and watercolour on collage on clumsy sketchbook.